Se você não limpa tua privada, cala tua boca

Não quero ser tomado por esquerdista nem por direitista.

Desprezo a ambos porque não quero saber de nenhum Zé Ruela pretensioso e autoritário querendo mandar em mim.

Aliás, autoritarismo é a palavra-chave do Brasil.

Não se busca, desde o século XIX, encontrar a tal “identidade brasileira”?

Pois bem, a tal identidade é essa: o autoritarismo.

O nome do Brasil é esse. À esquerda, à direita, qualquer infeliz que tenha lido um livro qualquer, que tenha freqüentado USP, PUC, FGV, FAAP (só prá ficar em São Paulo), qualquer centro acadêmico enfim, qualquer um desses basbaques acha-se no dever de instruir o povo, essa entidade mítica que nenhum desses grifados estudantes e graduados tem a menor idéia do que seja.

Seu contato com o tal povo se dá com as empregadas domésticas que limpam seus banheiros e arrumam suas camas, com os porteiros dos edifícios (simpaticamente apelidados de Severinos), com as cozinheiras que preparam seu repasto diariamente, com as babás que não podem usar perfume para que, ao levar os filhos da patroa para a escola, não sejam confundidas com as próprias, com os motoristas, que levam sumidades da esquerda, como o Sr. Emir Sader, por exemplo, às suas conferências remuneradas nas quais o tal povo será devidamente representado por gente decente, capaz, estudada e de boa família,  que ouve a MPB engajada ou não, muito mais indicados a falar pelo tal povo do que o tal povo, que é ignorante, estúpido e incapaz de saber o que quer.

A esquerda quer dizer o que você deve fazer, a direita quer dizer o que você deve fazer, teu vizinho provavelmente tem grandes idéias sobre como você deve levar a tua vida, e por aí vai. O cara não consegue mudar a si próprio, mas crê saber exatamente o que você ou eu devemos fazer para “otimizarmos” nossa existência.

É a maldição do Joaquim Nabuco: a escravidão nos assombrará por séculos ainda.

Enquanto isso, aturaremos (ou eu aturarei, já que a maioria daqueles que conheço joga o jogo dessa política minúscula com grande entusiasmo) príncipes perfeitos e guias messiânicos vomitando esterco pela boca, fazendo o arroz com feijão mais porco que se pode cometer, sem um átomo de criatividade, sem um átomo de vontade política de transformar o país num lugar decente, tudo isso levado a sério pela imprensa, tão ou mais comprometida com seus interesses clandestinos do que qualquer pmdb ou esse arremedo de partido que o kassabinho fundou. Ou o pt. Tanto faz, como já coloquei noutro post, no final das contas é distinguir entre porcos e ratazanas.

E, curiosamente, há paixão nas discussões.

Petistas de intenções inconfessáveis respondem a qualquer denúncia de malfeitoria dos seus atacando o tal PIG. Eu, que já sou meio velho, lembro de quando os tucanos e pefelistas estavam no poder, e acusavam a imprensa de ser formada exclusivamente por petistas, quando não por comunistas ressentidos.

Já os tucanos de gomalina no cabelo e pavor no coração (especialmente os paulistas, esses eternos bandeirantes conservadores e recalcados) destilam com grande desenvoltura seus preconceitos raciais, de classe e de qualquer outra espécie como se isso fora algo ditado à última hora no sexto dia da Criação.

É entre essas duas espécies de animais neuróticos que eu devo escolher?

Devo ser amigo do inimigo do meu inimigo, mesmo que esse seja um canalha arrematado?

Não.

Nunca.

E nem levo a sério quem não limpa a própria privada ou que possua uma “auxiliar” para passar a sua roupa e tirar o pó da sua biblioteca recheada de livros progressistas.

Se você tem empregada doméstica, faxineira, cozinheira, ou coisa que o valha, não se iluda, amiguinho: você é, em pleno século XXI, um sinhozinho de engenho que só pode ser o que é porque escravos fazem aquilo o que você tem nojo e vergonha de fazer.

A foto que ilustra o post tirei do segundo volume da História da Vida Privada no Brasil. A legenda:

Cada qual no seu lugar: duas vezes ao mês, havia uma revista dos escravos e funcionários da Companhia de Mineração São João Del Rei, em Morro Velho, Minas Gerais (Riedel, 1865)

À direita e à frente estão o Senhor e o Sinhozinho, que tudo vai herdar.

Morro Velho” também é o nome da canção do Milton, que conheço via Elis Regina. Nem sou emepebista, muito pelo contrário, mas essa canção normalmente me leva às lágrimas. Mas não é o que vem ao caso.

Meu espírito hoje é acusatório, e eu acuso você, meu caro leitor, que tem sua cama arrumada por outrem, que tem a poeira da tua casa retirada por outrem, que tem a tua comida feita por outrem, que tem a tua roupa lavada por outrem, que tem teus filhinhos cuidados por outrem, tudo isso prá que você tenha tempo disponível para trabalhar numa empresa bacana, e ainda cuidar e lapidar teu espírito, para daí acusar a imprensa PIG, para sentar o malho nos bornhausen, nos sarneys, nos kassabinhos e geraldinhos alckmins. Ou nos lulinhas, dirceuzinhos, paloccinhos e outras nulidades catastróficas da esquerda.

Na boa: limpa tua privada e aprende a fazer um arroz com feijão decente antes de qualquer coisa. Porque senão, meu amigo, você é aquele sinhozinho da foto, o herdeiro, que precisa daquela caralhada de escravos prá que você seja progressista, moderno e faapiano.

O resto é empulhação e divertimento de quem nunca passou necessidade na vida.

E fim de conversa.

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2 Comentários em “Se você não limpa tua privada, cala tua boca”

  1. Gio Diz:

    Você tem razão, acho que somos arremedo de sinhozinho mesmo… Uma música do Milton já me fez pessar nisso antes, e ela é maravilhosa por ser tragicamente verdadeira: “Você me quer forte e eu não sou forte mais, sou o fim da raça, o velho, o que já foi. Chamo pela lua de prata pra me salvar, rezo pelos Deuses da mata pra me matar. Você me quer belo e eu não sou belo mais, me levaram tudo que um homem precisa ter, me cortaram corpo à faca sem terminar, me deixando vivo sem sangue apodrecer. Você me quer justo e eu não sou justo mais, promessas de sol já não queimam meu coração. Que tragédia é essa que cai sobre todos nós.”
    Já ouvi de pseudo “burgueses-ricos” que a virtude do Brasil está em sua desigualdade social, no fato das pessoas do andar de cima poderem passar à frente do populacho, de poderem ser tratados com privilégio. Que pena que tudo é assim!!!

  2. jr Diz:

    “autoritarismo é a palavra chave do Brasil”
    concordo em gênero, número e grau
    como já dizia a Marilena Chauí!

    e vc, rapaz? tá vivo???


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