Da degola (01)

Posted Maio 15, 2009 by marcosschmidt
Categories: Da degola

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Impressiona-me na atuação do estado em fenômenos como Canudos, o Contestado, a Revolução Federalista, o período da ditadura militar, na guerrilha do Araguaia, entre outros casos tantos, a sua ferocidade desproporcional. E também sua ausência.

Ausência sistemática do que é distante, do que não representa seus interesses que são interesses privados da casta que o maneia. Ele próprio, o estado, é tomado de surpresa quando eclodem acontecimentos como Canudos. Não sabe o que se passa, não tem informações precisas sobre os acontecimentos que se dão à sua margem, exacerba sua reação como um corpo doente reagindo ensandecido a uma espetadinha de merda na ponta do dedo. E atua apenas de uma forma: manda a repressão, manda o choque, batendo seus cassetetes nos escudos feito falange macedônica. Manda o Bope, manda o Capitão Nascimento. E eles atuam com a ferocidade dos capitães do mato que fazem o serviço sujo do sinhozinho. Melhor não pensar, melhor agir.

Não é o que ocorre ainda hoje nas favelas, nas periferias, nos cús do Judas, onde o estado só põe os pés (ou as botas) prá tocar o terror?

Não está lá prá dar segurança, não está lá para dar escola, saúde, cidadania e garantir a possibilidade de vida decente.

Quando chega, é com o Caveirão, é pro Capitão Nascimento cortar a cabeça dos usuais 3 pês e mandar pro coronel.

Prá servir de exemplo.

Intermezzo 2

Posted Maio 14, 2009 by marcosschmidt
Categories: Homem sobre fundo verde com vermelho, Intermezzo

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Esta é uma tela muito antiga. Muito mesmo. Arrancando-se as camadas, devo chegar em coisas que fiz com uns 15 anos de idade. Esta deve ser a vigésima pintura que fiz sobre ela.

Daí que ela não seca de jeito nenhum.  Pelo contrário: essas coisas alaranjadas que escorrem pelo braço do sujeito estão sendo expulsas do quadro. Não é óleo, não sei o que é. É viscoso e grudento. E não seca.

Acabei gostando por causa disso.

Mas a tela está arruinada. Tudo o que encosta nela ou gruda ou tira pedaço. E acho que vai apodrecer.

Sabe que enquanto leio o que escrevo, gosto dela mais ainda?

E olha que nem sou chegado nessa coisa de couro e piercing…

Intermezzo 1

Posted Maio 14, 2009 by marcosschmidt
Categories: Intermezzo

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Da vista da minha janela. A qualidade da imagem está ruim: é uma foto de uma aquarela que é grande para os meus padrões.

É um prédio decrépito, mas não o mais decrépito que tenho à vista.

Como as coisas já muito usadas, está cheio de vida. Não consegui ver o rosto de quem apareceu ali. Mas não pus face nenhuma por pudor mesmo.

Sempre que eu olho prá esse prédio, lembro daquela história do Landão, do Laerte.

Conhece?

Série Grandes Cabeças Degoladoras 03

Posted Maio 12, 2009 by marcosschmidt
Categories: D. Geraldo de Proença Sigaud, Série Grandes Cabeças Degoladoras

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Deixando um pouco as forças armadas de lado, merece registro na Série Grandes Cabeças Degoladoras um típico e exemplar membro da sagrada Igreja Católica Apostólica Romana, que tanta alegria, paz e justiça têm trazido ao mundo com sua mensagem de amor, igualdade e fraternidade. Porque, antes de tudo, a Igreja, enquanto instituição, é santa e não erra nunca.

Afinal, ontem mesmo, na nota divulgada pela Diocese de Cajazeiras, na Paraíba, por causa dos videozinhos que mostram o Padre Duarte tendo um pouquinho de diversão, quando um seus de seus membros é apanhado mostrando “sua parte humana e pecadora” isso não tira “sua origem divina e santa”.

(Portanto, meu caro leitor, sempre que ouvir falar de padre que molesta criancinha, o que você deve fazer é “rezar pelos pecadores e pela santificação dos padres”. )

Mas estou divagando. O que quero mesmo é destacar o ilustre D. Geraldo de Proença Sigaud, arcebispo metropolitano da arquidiocese de Diamantina entre 1961 e 1980 e um dos fundadores da, veja você, TFP, humildemente retratado aqui numa aquarelinha singela.

Vale sua inclusão nesta série de homens sérios e preocupados com os destinos da República por causa de sua apaixonada defesa dos métodos utilizados pelo porão da ditadura. Repetiu mais de uma vez: “confissões não se conseguem com bombons.”

Homem fraterno e corajoso. Um sonho de valsa prá ele.

E que Deus nos ilumine a todos!

Série Grandes Cabeças Degoladoras 02

Posted Maio 11, 2009 by marcosschmidt
Categories: General Breno Borges Fortes, Série Grandes Cabeças Degoladoras

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Não basta cuidar da própria casa, é preciso estar atento aos perigos do quintal do vizinho.

O comandante do III Exército, Breno Borges Fortes (1908- 1982), muito cioso de seu dever de guardião da fronteira planejou uma invasão ao Uruguai caso o candidato subversivo do capeta saísse vencedor da eleição presidencial de 1971. Não ganhou, e o exército não invadiu o Uruguai.

Um Tom Zé que eu gostava mais escreveu há muito tempo: “Senhor Cidadão, eu quero saber, eu quero saber: com quantas mortes no peito se faz a seriedade?”

O general Breno, vê-se, é um homem muito sério.

Olhando para ele, chego até pensar em fisiognomia… Mas daí eu tiro isso da cabeça. Não vamos apelar, não é?

Série Grandes Cabeças Degoladoras 01

Posted Maio 11, 2009 by marcosschmidt
Categories: General Humberto Mello, Série Grandes Cabeças Degoladoras

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Inicio esta série com o espantoso general do II Exército Humberto de Souza Mello (1908-1974). Homem grande, pai de filha espírita, festeiro e falador.

Lê-se na página 193 de “A Ditadura Derrotada”, de Elio Gaspari:

(…) achava que a censura era pouca: “Isto nos leva a dar combate ao inimigo subversivo que utiliza, como instrumentos bélicos em sua insidiosa guerra revolucionária, armas convencionais brancas e de fogo, e também a palavra escrita e falada, o teatro, a televisão e o cinema para a pregação de um materialismo selvagem e demoníaco”.

Piada interna dos bivaques, no mesmo livro:

(…) um distúrbio intestinal derrubou o obeso Humberto Mello no palanque das autoridades que recebiam o presidente boliviano em Mato Grosso. “O que ele teve”, perguntou dias depois Heitor Ferreira ao general Figueiredo. “Uma idéia”, respondeu o chefe do gabinete Militar.

Humberto Mello pretendia-se sucessor de Médici. Não foi.

Ao inimigo não se poupa

Posted Maio 7, 2009 by marcosschmidt
Categories: Adão, Revolução Federalista, o degolador federalista

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degolador_94_detalhe02smEu procurava algo prá pintar, há uns dois anos atrás mais ou menos, e dava uma olhada nuns recortes de jornal e numas revistas velhas até que topei com uma foto da Revolução Federalista, de 1893, no Rio Grande do Sul.

Fiquei intrigado porque era uma foto evidentemente posada, e o que se via era um sujeito demonstrando o modo como ele degolava os prisioneiros capturados. A foto, e o homem, tinham nome: “Adão, conhecido degolador federalista”. Imagino que, como em Canudos, os condenados também fossem obrigados a gritar “Viva a República” antes de serem degolados.

Barbosa Lessa, eu leio, descreve no conto Noventa e três o modo como Adão Latorre (temos seu sobrenome, grande distinção é o que isso indica) pratica sua arte:

Maneado, com as mãos às costas, o prisioneiro era obrigado a ajoelhar-se; então o degolador vinha por trás, montava em seus ombros, e com a mão esquerda puxava-lhe o cabelo para cima e, com a mão direita, levava-lhe a adaga ao pescoço, seccionando com dois cortes as carótidas. Ou o condenado, também com as mãos amarradas às costas, era deitado ao chão; o carrasco sentava sobre suas coxas, calcando-lhe o queixo com o taco da bota da bota; assim, o queixo ficava bem levantado e era mais fácil correr o fio da adaga “à moda crioula”, isto é, de uma orelha a outra orelha.

Que belo gesto civilizatório:  a República está em perigo; o Estado, naturalmente, faz com que sintam sua presença. Envia coronéis, e tropas, e canhões; suas forças especiais e auxiliares. E entre eles está Adão, que merece o nome. É o primeiro símbolo fiel da nossa República, é o primeiro de muitos outros civilizadores.

“Avança! fraqueza do governo!”, é  que se ouvirá em Canudos.

Ouço isso ainda hoje, em qualquer esfera: municipal, estadual, federal…

Avança, e pratica a porcaria que tem feito e refeito há 120 anos.

Minha tela com o Adão está empacada. Tem 122 x 68 cm. Não sei como termino. Quero colocar cor, mas não sei onde, nem por que. Adão está congelado, segurando a lâmina no pescoço do infeliz, esperando que se dê a ordem para finalizar o gesto, capitão do mato obediente que é. Mas eu não sei como concluir o quadro e ele espera.degolador_94_detalhe01sm

Declaração

Posted Maio 5, 2009 by marcosschmidt
Categories: declaração

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Este é um blog conceitual.

Proponho uma espécie de reflexão, primeiramente para mim mesmo, já que não imagino quem possa se interessar por essas considerações pedestres, algo mal-humoradas e de caráter exclusivamente pessoal.

Reflito sobre a minha história. Sobre seu contexto. Quero saber no que me tornei e como me tornei. Gostaria de fazer isso num belo livro de capa dura e papel cuchê. Ou numa exposição na Fortes Vilaça. Mas não vai rolar… Então, vou fazer um blog mesmo.

Sou filho do milagre dos anos 70s, e quero pensar a respeito da terra na qual nasci. Quero entender porque ela é o que é. E por que eu sou o que sou.

Quero fazer isso com imagens e alguns textos. A imagem flui melhor, e ela comunica mais do que minha escrita.

Parto de um conceito para entender as coisas.

Esse conceito é a degola. Literal ou figurada.